Está a ler...

Ajuda no TPC

No mestrado em que estamos a participar, discutem-se, por estes dias, os valores sociais nos livros infanto-juvenis: um tema quente que nos tem levado a grandes discussões. 
Esta semana, foi-nos dada a tarefa de auscultar mediadores sobre a sua actuação perante certas histórias que possam conter, de uma forma ou de outra, algum tema ou passagens passíveis de alguma controvérsia. Usamos aqui, a título de exemplo, o conto tradicional "Não me cortes o cabelo que o meu pai me penteou". O que fazer com uma história onde a mãe enterra a filha ainda viva?

Simplesmente não contam.
Contam, mas mudam o que vos desagrada.
Discutem com os vossos ouvintes os detalhes que vos parecem inadequados.
Não há nada de inadequado e contam tal e qual.

A título de curiosidade, ainda há uns dias atrás, a propósito do livro "Pedro Esgrouviado" de Heinrich Hoffman, a Sal (desculpa trazer-te ao barulho), no seu blogue Prateleira de baixo, escreveu: "Vou esperar que os miúdos cresçam mais um pouco e depois talvez lhes mostre este louco livro dos horrores. Talvez." 
Esperar que eles cresçam também pode ser uma opção
Quem atira a primeira pedra?

bruaás nesta entrada

Marisa

Acabei de ver o vídeo: que conto sinistro! o_O
Este em particular não o contava, as crianças podem interpretar as coisas literalmente (a mãe enterra a própria filha viva?!... credo!)
Mas, noutra história qualquer, se apenas pequenos pormenores me suscitassem dúvidas morais, creio que optaria por contara história à minha maneira. Um dia, quando as crianças crescerem, podem ler sozinhas a história tal e qual como ela e então discutem-se os "detalhes inadequados".
É a minha opinião. Espero ter ajudado, bom trabalho! ^_^

Bruaá

Muito obrigado, Marisa.

Favas

Miguel, como narradora oral, mediadora de leitura e como mãe, eu conto tudo, ou então não conto a história. uma vez que opto por contar o conto, é com todos os ingredientes. obviamente que tb depende do tipo de crianças que tenho pela frente, idade, tipo de envolvimento que tenho com eles, facilidade de escuta ou não, enfim...
Sou absolutamente contra esta coisa de limpar os contos, sob pena de deturpar o sentido e o propósito do próprio conto, ou de achar que coitadinhas das criancinhas que ficam traumatizadas para a vida, há que ter bom senso.
Tenho mesmo a certeza que muito mais violento do que a mãe enterrar a filha no conto, é toda a violencia explicita que as crianças consomem diariamente na tv e no cinema. Além do mais é preciso não esquecer que o conto ao ser contado, é envolvido pelo afecto; é a relação que se estabelece entre contador e ouvinte que é importante, mais do que tudo o resto.

Marta

A verdade é que não sei. Ás vezes penso que os pormenores sangrentos nos impressionam mais (adultos) do que as crianças. Uma amiga tem uma versão do Capuchinho Vermelho em que no final eles matam o lobo e comem-no (esventrar já é mau mas sempre é para tirar a avózinha, comer já é pior para mim - mas nem esventrar me fez impressão quando era pequena). Essa é a versão preferida da filha dela. Talvez eles ainda vejam o mundo muito a preto e branco e precisem de recompensas e castigos que, para nós, estão muito nos extremos da escala (casar com o principe encantado ou morrer queimado). Ou então não é nada disso e são só uns monstrinhos sanguinários... :)
Marta Loureiro

sweety

Um tema deveras quente e polémico! Acho que devemos primeiro pensar se estas serão histórias infantis? Ou histórias infantis do género "terror"?
Mas há sempre que ter em conta o público e estar atento à sua reacção!
A propósito, adorei o vídeo e a história que não ouvia desde miúda... terrorífico!
Depois, diga-me o resultado do TPC! Fico curiosa:)
Isabel Costa

Isabel

Tem piada porque hoje de manhã, a minha Maria me contou quase de uma ponta à outra a história da "Maria e João e a Casa de Chocolate". Sem pestanejar, falou dos filhos abandonados na floresta, da bruxa que os queria comer e da mãe, a má da fita, pior ainda do que a bruxa... Não fui eu que lhe contei a história, talvez tenha sido na escola. Mas pelos vistos não lhe fez impressão nenhuma que houvesse ali tanto horror. Parecia a coisa mais natural do mundo que uma mãe pudesse ser assim (na versão dela não era madrasta, era mesmo mãe) e que houvesse bruxas esfomeadas à espera de meninos gulosos, aí ao virar de cada esquina...

Marisa

Olá! Já agora gosta de saber qual é o mestrado que estão a frequentar, pois também me queria "especializar" / aprender mais sobre a mediação da leitura.

Obrigada,
Cidália

sal

Então também entro no barulho. Para dizer que o duplo "talvez" do meu post vem da verdadeira hesitação que representa e que, no "cresçam mais um pouco", está a minha resposta a esse tipo de hesitações: agora sei que não, mais tarde volto a pensar se lhes mostro ou quando lhes mostrarei; porque me parece que mais tarde pode ser divertido verem-na, tal como tenciono contar-lhes a história do oralhapo (http://prateleira-de-baixo.blogspot.com/2009/11/o-olharapo-da-minha-avo.html) como a minha avó alentejana me contava e não como a minha mãe alentejana hoje, por bem, lhes conta (guardo também uma bem pior que implicava um banco feito de ossos humanos que, no final da história, se queixava cada vez que a princesa o pisava para subir para a cama à noite: "ai mêsossos!..").
Mas também me parece que os assuntos passíveis de controvérsia não serão os mesmos para todos (diferentes crianças e diferentes adultos). Há livros que nunca lhes lerei enquanto forem crianças, que estão na secção infantil e que são belos livros ("o fumo", da kalandraka, por exemplo- para outras sensibilidades este poderá ser um óptimo livro; eu não quero falar do holocausto aos meus filhos de 3 e 5 anos). Por outro lado, para a minha sensibilidade, algum humor - negro, será - não faz mal a ninguém, desde que as crianças tenham a capacidade de perceber o grotesco, ou a ironia da coisa. Para famílias onde há crianças que sofrem com pesadelos e medos, não fará sentido povoar o seu imaginário com histórias que lhes compliquem ainda mais a cabeça.
E depois há as histórias bacocas, fúteis e mal escritas (há mesmo muitas): essas sim, sem dúvida seria de evitar que passassem pela história literária de todos nós.

Bruaá

Muito obrigado pelas vossas considerações. Ficamos com uma boa amostra. Partilho de muitas das vossas opiniões e este é mais um caso onde o bom senso é bem-vindo. Concordo com a Favas quando diz que há muito mais violência na tv e com essa ninguém se preocupa, a qual acabo por colocar no mesmo patamar das histórias bacocas que fala a Sal.
No entanto, o que diz a Favas no final do seu texto parece-me de extrema importância: "Além do mais é preciso não esquecer que o conto ao ser contado, é envolvido pelo afecto; é a relação que se estabelece entre contador e ouvinte que é importante, mais do que tudo o resto."
Muito obrigado a todas. Bjs.

 

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