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Os dois esqueletos

OS DOIS ESQUELETOS, com os ossos esbranquiçados pelo sol, conversam empoleirados no muro do cemitério.
ESQUELETO A - Ouve.
ESQUELETO B - Diz.
ESQUELETO A - O pior que podemos fazer é desanimar.
ESQUELETO B - Sim, isso seria pior.
ESQUELETO A - Virão tempos melhores, tenho a certeza disso.
ESQUELETO B - Oh, claro! Virão tempos melhores!
ESQUELETO A - É questão de saber esperar.
ESQUELETO B - Sim, é isso mesmo.
ESQUELETO A - As árvores voltarão a ser verdes.
ESQUELETO B - É isso: verdes. E os pássaros cantarão outra vez.
ESQUELETO A - Ah, que agradável vai ser então ver-nos regressados à carne!
ESQUELETO B - Acreditas realmente que regressaremos à carne?
ESQUELETO A - Quem é que duvida?
ESQUELETO B - (Nostálgico.) Isso seria estupendo.
ESQUELETO A - (Depois de uma breve pausa.) Como te chamavas antes?
ESQUELETO B - Juanito.
ESQUELETO A - Vá lá, Juanito! Anima esse coração!
ESQUELETO B - (Olhando através das costelas.) Que coração?
ESQUELETO A - (Reconsiderando a situação, com um tom subitamente desesperado.) A verdade é que fizemos mal em morrer.
ESQUELETO B - Sim, fizemos mal.
ESQUELETO A - Perdemos o coração.
ESQUELETO B - Sim, perdemo-lo.
ESQUELETO A - Isso foi, sem dúvida nenhuma, o pior.

Silêncio. O ESQUELETO B sopra na própria tíbia e produz uma suave melodia que quase não faz ondular a cabeça das urtigas. Conjuradas pela música, as serpentes de há cem anos - apenas um rosário de pequenas placas ósseas - tentam inutilmente erguer-se como nos velhos tempos do veneno fulminante.

in "Histórias mínimas" de Javier Tomeo
Livros Horizonte, 1982

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